domingo, 22 de abril de 2018

Fodam-se os exorcistas de plantão.

Eu gosto de pessoas com diabo no corpo.
Aquelas que rasgam seu coração.


Hippies bonzinhos com gratidão

também me enchem o saco.
Só respeito o bem assim misturadinho com o mal.

Já que é um desabafo,
Que vão para o inferno os hipócritas
Com suas cartilhas de moral e boa conduta
Meu corpo é meu
Bebo do veneno que tiver vontade
Como o cacete que achar gostoso
E semeio minhas sementes na hora que escolher.


Por fim, morte dolorida aos moderninhos

e suas mentiras escondidas com verniz.
Careta não é o abstêmio
Careta é quem faz de si um espelho.


Eu quero é andar com os loucos que não se conformam
.

Cancela o amor


Guardaram meu afeto
em uma caixa branca
para sempre inacessível.

Sou obrigada a atravessar
a solidão de minha dor.
Suportar a caixa lacrada.
Cancelar o amor.

Se o tempo
é o amparo dos desolados
Acreditar nas janelas
que a vida insiste
em abrir.

Acreditar que não há nenhum
terreno assolado
que a vida
não persista em agir

quarta-feira, 29 de março de 2017

Num belo dia de outono



Num belo dia de outono

Os passarinhos cantavam timidamente


E o sol acariciava com delicadeza a tez


Nesse dia comumente singelo


Decidi não apenas sentar-me no muro


Queria ficar mais alto, conhecer mais, fazer mais


Foi quando escorreguei


Caí, o joelho sangrou, eu acordei


Estava do outro lado do muro


E o vizinho homem bem velhinho


Ajudou-me a cuidar da ferida


Ele me disse com amor: a gente levanta para cair de novo.


Deu-me um beijo e uma goiaba


Contou-me que sua mulher chamava-se Maria e há anos não mais falava


Contou-me que em idos tempos adorava sentar-se naquele muro e


[sonhar]


Depois me disse com olhar profundo: já sabes o segredo


“Nada é melhor do que sonhar”


Choramos juntos e nos abraçamos.


No dia seguinte


Sentei-me no muro, olhei tudo o que já havia visto antes


Dominei a beleza do mundo


Inventei medicinas


Amei as mais belas mulheres


Liderei os homens na luta por um mundo melhor


Havia uma cicatriz no meu joelho


E, apesar dos olhos tristes


Não chorei, afinal


Era apenas um garoto sentado no alto do muro, sonhando



O vizinho saiu a varanda


Olhou-me com amor


Fiquei de pé e gritei corajoso: o senhor me ajudou a não ter mais medo!


Agora, já posso sonhar sem chorar!


O velhinho entrou rapidamente, pois queria esconder uma lágrima...




(Extraída de PEYON, E. Pequenas Conchinhas. Rio de Janeiro: Papel Virtual Ed., 2004
)

sábado, 11 de março de 2017

Você foi o amor ( e só isso basta)

É tradição escrever uma carta aos antigos amores, você provavelmente sabe.
Essa carta é diferente, você foi uma experiência diferente, mas vamos começar do início.
Com você eu desembarquei no alvoroço do querer bem, fui sem guia, sem consultar o horóscopo, sem interesse de chegar em algum lugar. Simplesmente disse sim, quando era dia, eu disse sim, durante a tarde eu disse sim, anoitecia eu disse, sim.
Mas hoje eu vejo que pra você eu era um capítulo, você ainda precisava resolver fantasmas do passado e nessa longa história da sua vida eu fui um capitulo que como estava no meio de muita indecisão não se prolongou. Mas o ponto chave é que pra mim você era um livro e por isso foi dolorido.
Você é uma boa pessoa Você me ensinou a amar, a querer. Mas quando eu mais esperei consideração, você virou as costas e decidiu que eu não existia mais. Foi uma puta sacanagem, você revelou um lado que eu não gostei de conhecer, se mostrou insensível ao meu querer.
E eu por um bom tempo relutei em dizer adeus, mas saber dizer adeus é: sentir essa dor afiada. Aceitar a lágrima em forma de punhal. Ser essa tristeza tão áspera, é preciso saber dizer adeus para viver. Então essa carta é para isso, Adeus meu antigo menino.
Por muito tempo você foi tudo o que eu mais sempre quis e hoje é o que eu não quero. Não por ser você, mas sim porque eu sou meu sol e está decidido que nada nem ninguém vai ofuscar meu brilho. Nem a dor, quando a gente não encara a dor detém o próprio curso da vida.
Foi uma desilusão, quando eu me despedi disse adeus ao futuro que eu arquitetei. Como se diz adeus ao futuro? Mas apesar da grande desilusão e do encerramento do nosso livro, eu sempre me lembrarei de você como alguém querido, que veio e se foi, que seguiu o curso natural dos relacionamentos.
Continue escrevendo seu livro, me sinto feliz de ter feito parte dessa história. Busque não machucar em excesso as pessoas, o universo sempre cobra as dívidas no futuro. E viva grandes amores, você merece a felicidade como ninguém.

Adeus Presuntinho, esse é nosso último capítulo. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

E agora é não



desembarquei
no alvoroço do querer bem.
sem guia
com pouca água
os óculos escuros
esquecidos na prateleira.
não consultei nenhum oráculo
nem estava interessada em chegar
a algum lugar.

quando era dia,
eu disse, sim
durante a tarde
eu disse, sim
anoitecia
eu disse, sim.

era o sim
sem ciência.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016


Já faz um tempo

Que eu queria te escrever um som

Passado o passado,

Acho que eu mesma esqueci o tom

Mas sinto que eu te devo sempre alguma explicação.

Parece inaceitável a minha decisão.

Eu sei.




Da primeira vez quem sugeriu,

Eu sei, eu sei, fui eu.

Da segunda quem fingiu

Que não estava ali também fui eu.

Mas em toda a história,

É nossa obrigação

Saber seguir em frente,

Seja lá qual direção.

Eu sei.




Tanta afinidade assim, eu sei que só pode ser bom.

Mas se é contrário, é ruim, pesado

E eu não acho bom.

Eu fico esperando o dia que você

Me aceite como amiga,

Ainda vou te convencer.




Eu sei.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

eu vejo



Achei que você deveria saber que me importo com o que possa nos acontecer, que confio plenamente nas pessoas que somos e no que sentimos. Atrapalhados, com certeza, mas não desistentes. Não incapazes de viver o que nos fere, intriga. E o que nos concede prazer e felicidade.

Seres originais como nós sentem muito medo. Todos nos sentimos medo diante da originalidade de quem somos, mas aprendemos a lidar com ela. Todos nós temos o direito de ser. Seremos algum dia? Eu e você?

Você me dá conforto, conforto pra ser eu mesma. Eu não preciso mentir amor, vomitar amor, fingir que tenho amor. Com você eu posso ser eu. Eu navego aprendendo um tanto contigo, eu sinto à vontade de salvar o Mundo, eu quero que todos sejam felizes, sem mascaras, sorrindo a verdade.

Eu gosto da forma como você induz a vida, do seu amadurecimento. Sobre mim, ainda não atingi o amadurecimento, tenho bobagens repentinas, carências urgentes, ausência de respostas, ansiedade concentrada, angústia que talha a carne e um ciúme que dilacera o orgulho. 


Sobre o que eu sinto por você, é amor. Não falo do amor romântico, aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento. Relações de dependência e submissão, paixões tristes. Algumas pessoas confundem isso com amor. Chamam de amor esse querer escravo, e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida, explicada, entendida, julgada. Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro, antes de ser experimentado.
Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta. A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado. O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. O amor está nessa amizade que criamos. Esse é o amor que eu sinto.

Eu acredito que existem amores sem fidelidade, acomodados e que ficam pela metade. E existem amores que se respeitam, fazem rir, cantar, dançar, que nos fazem ser mais corajosos do que nunca. Então, basta escolher. Qual amor você quer sentir comigo?

Seremos algum dia? Eu e você?

Acredito que, tanto eu quanto você, sempre soubemos que seremos, mas sem reconhecimento do quando ou do como. Somos das esperas.