"[...]Quando acabarem vão ter connosco, e acrescentou, Isto é se quiserem comer amanhã e dar de mamar aos vossos homens. Diziam estas palavras em todas as camaratas, mas continuavam a divertir-se tanto com a chalaça como no dia em que a tinham inventado.Torciam-se de riso, davam patadas, batiam com os grossos paus no chão, um deles preveniu subitamente, Eh, se alguma de vocês está com o sangue, não a queremos, ficará para a próxima vez, Nenhuma está com o sangue, disse serenamente a mulher do médico, Então preparem-se, e não se demorem,estamos à vossa espera. Viraram costas e desapareceram. A camarata ficou em silêncio. Um minuto depois, disse a mulher do primeiro cego, Não posso comer mais, era quase nada o que tinha na mão, e não o conseguia comer, Nem eu, disse a cega das insónias, Nem eu, disse aquela que não se sabe quem seja, Eu já acabei, disse a criada de hotel, Eu também, disse a empregada do consultório,Eu vomitarei na cara do primeiro que se chegar a mim, disse a rapariga dos óculos escuros. Estavam todas levantadas, trémulas e firmes. Então a mulher do médico disse, Eu vou à frente. O primeiro cego tapou a cabeça com a manta, como se isso servisse para alguma coisa, cego já ele estava, o médico atraiu a mulher a si e, sem falar, deu-lhe um rápido beijo na testa, que mais podia ele fazer, aos outros homens tanto se lhes devia dar, não tinham nem direitos nem obrigações de marido sobre nenhuma das mulheres que ali iam, por isso ninguém poderá vir a dizer-lhes, Corno consentidor é duas vezes corno. A rapariga dos óculos escuros foi pôr-se atrás da mulher do médico, depois,sucessivamente, a criada do hotel, a empregada do consultório, a mulher do primeiro cego, aquela que não se sabe quem seja, e enfim a cega das insónias, uma fila grotesca de fêmeas malcheirosas, com as roupas imundas e andrajosas,parece impossível que a força animal do sexo seja assim tão poderosa, ao ponto de cegar o olfacto, que é o mais delicado dos sentidos, não faltam mesmo teólogos que afirmam, embora não por estas exactas palavras, que a maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há.[...]"
"Ensaio sobre a cegueira"
José Saramago,1995.
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