quarta-feira, 29 de março de 2017

Num belo dia de outono



Num belo dia de outono

Os passarinhos cantavam timidamente


E o sol acariciava com delicadeza a tez


Nesse dia comumente singelo


Decidi não apenas sentar-me no muro


Queria ficar mais alto, conhecer mais, fazer mais


Foi quando escorreguei


Caí, o joelho sangrou, eu acordei


Estava do outro lado do muro


E o vizinho homem bem velhinho


Ajudou-me a cuidar da ferida


Ele me disse com amor: a gente levanta para cair de novo.


Deu-me um beijo e uma goiaba


Contou-me que sua mulher chamava-se Maria e há anos não mais falava


Contou-me que em idos tempos adorava sentar-se naquele muro e


[sonhar]


Depois me disse com olhar profundo: já sabes o segredo


“Nada é melhor do que sonhar”


Choramos juntos e nos abraçamos.


No dia seguinte


Sentei-me no muro, olhei tudo o que já havia visto antes


Dominei a beleza do mundo


Inventei medicinas


Amei as mais belas mulheres


Liderei os homens na luta por um mundo melhor


Havia uma cicatriz no meu joelho


E, apesar dos olhos tristes


Não chorei, afinal


Era apenas um garoto sentado no alto do muro, sonhando



O vizinho saiu a varanda


Olhou-me com amor


Fiquei de pé e gritei corajoso: o senhor me ajudou a não ter mais medo!


Agora, já posso sonhar sem chorar!


O velhinho entrou rapidamente, pois queria esconder uma lágrima...




(Extraída de PEYON, E. Pequenas Conchinhas. Rio de Janeiro: Papel Virtual Ed., 2004
)

sábado, 11 de março de 2017

Você foi o amor ( e só isso basta)

É tradição escrever uma carta aos antigos amores, você provavelmente sabe.
Essa carta é diferente, você foi uma experiência diferente, mas vamos começar do início.
Com você eu desembarquei no alvoroço do querer bem, fui sem guia, sem consultar o horóscopo, sem interesse de chegar em algum lugar. Simplesmente disse sim, quando era dia, eu disse sim, durante a tarde eu disse sim, anoitecia eu disse, sim.
Mas hoje eu vejo que pra você eu era um capítulo, você ainda precisava resolver fantasmas do passado e nessa longa história da sua vida eu fui um capitulo que como estava no meio de muita indecisão não se prolongou. Mas o ponto chave é que pra mim você era um livro e por isso foi dolorido.
Você é uma boa pessoa Você me ensinou a amar, a querer. Mas quando eu mais esperei consideração, você virou as costas e decidiu que eu não existia mais. Foi uma puta sacanagem, você revelou um lado que eu não gostei de conhecer, se mostrou insensível ao meu querer.
E eu por um bom tempo relutei em dizer adeus, mas saber dizer adeus é: sentir essa dor afiada. Aceitar a lágrima em forma de punhal. Ser essa tristeza tão áspera, é preciso saber dizer adeus para viver. Então essa carta é para isso, Adeus meu antigo menino.
Por muito tempo você foi tudo o que eu mais sempre quis e hoje é o que eu não quero. Não por ser você, mas sim porque eu sou meu sol e está decidido que nada nem ninguém vai ofuscar meu brilho. Nem a dor, quando a gente não encara a dor detém o próprio curso da vida.
Foi uma desilusão, quando eu me despedi disse adeus ao futuro que eu arquitetei. Como se diz adeus ao futuro? Mas apesar da grande desilusão e do encerramento do nosso livro, eu sempre me lembrarei de você como alguém querido, que veio e se foi, que seguiu o curso natural dos relacionamentos.
Continue escrevendo seu livro, me sinto feliz de ter feito parte dessa história. Busque não machucar em excesso as pessoas, o universo sempre cobra as dívidas no futuro. E viva grandes amores, você merece a felicidade como ninguém.

Adeus Presuntinho, esse é nosso último capítulo. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

E agora é não



desembarquei
no alvoroço do querer bem.
sem guia
com pouca água
os óculos escuros
esquecidos na prateleira.
não consultei nenhum oráculo
nem estava interessada em chegar
a algum lugar.

quando era dia,
eu disse, sim
durante a tarde
eu disse, sim
anoitecia
eu disse, sim.

era o sim
sem ciência.