Ás vezes me pego vivendo com se viver fosse só viver
e isso é comum e difícil e cômodo e também do que tem de ser
mas de repente acontece algo que me arranca com violência dos nexos pretensos
algo que expõe as vísceras e revela o amor mais sólido que existe
algo que te lembra que viver é atravessar buracos negros
é martelar galáxias com sonhos é ter coragem para romper os limites encruados
é dar sentido ao que nunca terá sentido
é ser e ser e ser e ser fazer o que se tem de fazer valer o que se tem pra valer
independer dos assombros lógicos dos símbolos incompreendidos
romper com pactos cotidianos e atravessar labaredas explodidas e fudidas
romper ainda mais as coisas rompidas. desnutridas. preteridas
e assumir o que não se sabe mas que nú comove violar o sagrado
com gôsto cuspir os dentes e sangrar os ossos rezar a religião inexistente
cortar o cordão umbilical da ala pobre de si ultrajar o próprio êxito com existos
ter pele de coração ação pelo ato são de enlouquecer
como estava escrito lá no canto vulgar de uma parede a parar no sem querer de um olhar
‘a arte é inevitável’
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